Mostrando postagens com marcador Autismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Autismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Os benefícios da equoterapia para as pessoas com deficiência

Retirado do site vidamaislivre.com.br
Texto de Daniel Limas, da Reportagem do Vida Mais Livre
Link AQUI
Foto extraída da rede

Sem precisar de qualquer pesquisa científica, é fácil apontar alguns dos inúmeros benefícios de ter um animal de estimação ou mesmo estar próximo deles. Ah! vale dizer que é preciso gostar de animais. No entanto, o que poucos sabem, é que os bichos também podem ser protagonistas de terapias de reabilitação de pessoas com deficiência. Instituições e profissionais que trabalham com este tipo de terapia relatam excelentes resultados.
Uma das terapias que fazem uso de animais é a equoterapia, que como o próprio nome diz, trabalha com cavalos. Ela une as técnicas de equitação e atividades equestres com a finalidade de reabilitar e educar as pessoas com deficiência. “Os principais ganhos são os motores e os psicológicos”, explica Liana Pires Santos Site externo, psicopedagoga do Gati (Grupo de Abordagem Terapêutica integrada). Jorge Matsuda, especialista em educação e vice-diretor do Centro Básico de Equoterapia General Carracho (CBEGC-DF), da Ande (Associação Nacional de Equoterapia) Site externo, também é da mesma opinião: “o passo do cavalo estimula o deslocamento do corpo no espaço e, com isso, exercita o equilíbrio, a coordenação, o tônus muscular e a postura. Além disso, possibilita ganhos psicológicos, aumentando a autoestima e a autoconfiança”, explica. Isso ocorre porque o animal torna-se um amigo digno de total confiança, que ajuda com suas pernas e patas para a melhora dos pacientes.
“Durante toda a sessão, os terapeutas também ajudam a estimular a fala, a linguagem, o tato, a lateralidade, cor, organização e orientação espacial e temporal, memória, percepção visual e auditiva, direção, análise e síntese, raciocínio, e vários outros aspectos”, explica Jorge Matsuda. Na esfera social, a equoterapia ainda é capaz de diminuir a agressividade, tornar o paciente mais sociável, diminuir antipatias, construir amizades e treinar padrões de comportamento como: ajudar e ser ajudado, diminuir e aceitar regras, encaixar as exigências do próprio indivíduo com as necessidades do grupo, aceitar as próprias limitações e as limitações do outro.
Apesar de ser uma terapia bastante recomendada, ela tem restrições ou contra-indicações, como quase tudo nessa vida. Por isso, é imprescindível que o paciente passe por uma avaliação médica que ateste as condições e também é recomendada uma análise psicológica e fisioterápica do futuro praticante. “Também não costumo recomendar a equoterapia para pessoas com alergias aos animais e com restrições ortopédicas”, explica Liana.
O trote que trata. Do site https://equoterapia.wordpress.com/2012/10/22/o-trote-que-trata/

Antes de começar o tratamento em si, Jorge Matsuda ainda recomenda que o paciente seja estudado por uma equipe interdisciplinar composta por profissionais das áreas de educação, saúde e equitação, quais sejam: pedagogos, professores de educação física, de ensino especial, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, médicos, profissionais de equitação habilitado em Equoterapia e outros. O praticante é avaliado pela equipe e a partir disso é elaborado um programa especial e definido os seus objetivos.
Criança sobre um cavalo e três pessoas estão ao seu redorNormalmente, as sessões são individuais e têm a duração média de 30 minutos cada. O tratamento em equoterapia dura em média dois anos no Centro Básico de Equoterapia General Carracho (CBEGC-DF), podendo ser reduzido ou dilatado em função do diagnóstico, da característica de cada praticante, do desenvolvimento do trabalho terapêutico e outros fatores intervenientes. Outra característica importante é que, para poder atuar no tratamento das pessoas com deficiência, os cavalos são selecionados e separados segundo uma série de características físicas e psicológicas e necessitam ser constantemente trabalhados e adaptados para a equoterapia.
Segundo profissionais da área, a equoterapia é indicada para o tratamento dos mais diversos tipos de comprometimentos motores, como paralisia cerebral, problemas neurológicos, ortopédicos, posturais; comprometimentos mentais, como a Síndrome de Down, comprometimentos sociais, tais como: distúrbios de comportamento, autismo, esquizofrenia, psicoses; comprometimentos emocionais, deficiência visual, deficiência auditiva, problemas escolares, tais como distúrbio de atenção, percepção, fala, linguagem, hiperatividade, e pessoas “saudáveis” que tenham problemas de posturas, insônia, stress.
Heitor Borella, que nasceu com paralisia cerebral, praticou equoterapia com a psicopedagoga Liana durante dois anos – de 2003 a 2005. “Só parei porque um médico orientou que eu parasse porque eu estava ficando corcunda e a terapia poderia prejudicar ainda mais”, explica o rapaz que hoje tem 19 anos, estuda jornalismo (quarto semestre) e é assistente administrativo da área de seguros do Itaú Unibanco Site externo.
Ele considera esse tratamento fundamental para a vida das pessoas com deficiência. “Essa prática mexe com todos os movimentos da pessoa. Traz benefícios enormes para a coluna e para as pernas. Fora isso, é ótimo para a parte psicológica, pois a oportunidade de ter contato direto com os animais acaba refletindo no psicológico. Ao fazer a terapia, percebi grande melhora no meu humor, na vontade de fazer as coisas e no ritmo de vida”, relata Heitor.
O jovem também recomenda que o paciente saiba esperar um pouco, pois os resultados não aparecem logo nas primeiras sessões. “Mas eu já vi caso de uma pessoa que não conseguia ficar sobre o cavalo e logo foi progredindo. Achei espetacular”, lembra. Ele também conta que descobriu essa terapia graças à Liana, que já foi a sua psicopedagoga. Ela começou a trabalhar com a equoterapia por volta do ano 2000, e ele se interessou pelo novo trabalho da Liana. “Demorei três anos para convencer a minha mãe”, conta. Para finalizar, uma dica de Liana: “Ter um animal em casa já ajuda muito. Além disso, está comprovado que ter um animal tira a pessoa do sedentarismo e traz benefícios para a rotina de vida e responsabilidades”, explica.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A maneira como bebês olham para rostos pode dar novas pistas sobre o autismo

Pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Washington mostrou que a maneira com que olhamos uns para os outros é determinada por um forte componente genético e isso pode ser um caminho para descobrir quais genes estão diretamente ligados ao transtorno do espectro autista



Retirado da excelente revista CRESCER

A ciência já sabe que crianças autistas olham menos para rostos e mais para objetos do que as que têm desenvolvimento típico. Mas não é só isso. Uma nova pesquisa da Universidade de Washington mostrou que a genética é o fator decisivo para essa diferença.

No estudo, os cientistas analisaram os movimentos oculares de 338 bebês entre 1 ano e meio e dois anos, levando em consideração para onde direcionavam o olhar ao ver uma cena com diversos elementos. Entre eles havia 250 crianças de desenvolvimento normal (41 pares de gêmeos idênticos, 42 pares de gêmeos não idênticos e 84 crianças sem parentesco) e 88 crianças com autismo.
Durante os testes, os pequenos assistiram a vídeos de mulheres e crianças brincando em uma creche. Os resultados surpreenderam os cientistas, pois mostraram que os movimentos dos olhos dos gêmeos idênticos ao encarar a cena foram iguais em 91% do tempo. No caso, dos gêmeos não idênticos, a semelhança caiu para 35% e quando os dados de duas crianças sem nenhum parentesco foram comparados não houve coincidência alguma.
Isso mostra que a genética é o fator determinante para a maneira como os bebês interagem em suas primeiras experiências sociais como fazer contato visual ou observar expressões faciais. O próximo passo da pesquisa é descobrir que genes se manifestam no controle visual, e, como essa é uma grande diferença entre as crianças autistas e as de desenvolvimento normal, isso pode se tornar um campo de pesquisa promissor para tratamentos do transtorno.
De acordo com Alysson Muotri, diretor do programa de células-tronco da Universidade da Califórnia em San Diego, a pesquisa comprova que existe um componente genético muito forte na visualização de cenas sociais e, como isso está fora de sincronia em autistas, é mais uma evidência da significativa contribuição dos genes para essa condição. “Como são diversos genes implicados no autismo, descobrir exatamente quais estariam ligados a visualização social é um desafio grande, mas importantíssimo para entender esse mecanismo e, quem sabe, desenvolver tratamentos que sejam mais específicos para auxiliar os autistas”, explica.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Musicoterapia como opção terapêutica


Retirado do site Saúde com ciência, da UFMG, uma reportagem sobre musicoterapia e seus beneficios para os pacientes autistas e com atrasos da fala e do desenvolvimento em geral. Se quiser acessar o site, clique aqui: http://sites.medicina.ufmg.br/radio/2017/08/25/praticas-integrativas-e-complementares/. Ou ouça o programa abaixo: 

sábado, 27 de maio de 2017

Estimule seu filho a falar!!!

A excepcional revista CRESCER publicou em 2013 uma excelente matéria sobre como estimular o seu filho a falar. Embora seja de 4 anos atrás, a matéria segue útil e mais atual que nunca. Você lerá um trecho abaixo, e pode ler na íntegra aqui.




Quando meu filho vai começar a falar? Qualquer pai e mãe se faz essa pergunta e espera ansiosamente pela primeira palavra do bebê. Em média, as crianças começam a balbuciar com 1 ano. Os primeiros sons estão mais para sílabas do que palavras, como “mã” e “pa”. Mas não importa como aconteça, esse momento trará uma emoção enorme.
Para que a criança continue desenvolvendo suas habilidades com a fala, é preciso estimulá-la. O jeito mais natural de fazer isso é conversar com os bebês. No entanto, uma pesquisa realizada na Universidade de Chicago (EUA) provou que ações não-verbais podem ser tão importantes quanto o bate-papo para melhorar esse aprendizado.Por exemplo, o ato de apontar para um livro enquanto se diz “a mamãe vai pegar um livro” facilita a memorização dessa palavra.

O estudo avaliou 50 bebês entre 14 e 18 meses e gravou vídeos enquanto eles interagiam com os pais. Uma das descobertas foi que o uso da fala associada a um contexto específico (falar “livro” quando se está perto de uma estante) variou muito de um pai para o outro. Os filhos daqueles que falavam mais palavras relacionadas ao contexto ou aos objetos em questão apresentaram um vocabulário mais amplo três anos mais tarde. Segundo os pesquisadores, com pequenos ajustes nas conversas os pais podem dar um estímulo mais eficiente à fala das crianças.
De acordo com a fonoaudióloga Ana Maria Hernandez, coordenadora da equipe de fonoaudiologia do Hospital Santa Catarina (SP), falar dentro de um contexto e fazer gestos (como apontar para o objeto) podem favorecer o aprendizado, pois é uma maneira de o adulto apresentar o mundo para a criança. No entanto, a fala também depende de vários outros fatores para se desenvolver. “Ela é uma expressão da linguagem e, como tal, resulta da integração entre diversos sistemas. A criança precisa estar com o sistema neurológico preservado, a parte motora e psicológica também”. Ou seja, até o carinho que você dá para o seu filho pode fazer diferença no desenvolvimento da fala.
A seguir, listamos algumas dicas que você pode adaptar sem muito trabalho ao seu cotidiano:
Narre o mundo
O conceito pode parecer estranho, mas na prática é muito simples. Converse com o seu bebê sobre aquilo que o rodeia. Na hora de trocar a fralda, por exemplo, vá nomeando suas ações: “vou limpar seu bumbum, vamos colocar uma fralda limpinha, você vai ficar cheiroso”. Durante um passeio no parque, apresente as árvores, a grama, os passarinhos. Apontar, como explicado na pesquisa, também é um ótimo recurso porque dá forma às palavras. A criança associa o som ao objeto e fica muito mais fácil decorar o nome dele.

Atenção ao tom de voz
Quando falamos, colocamos sempre uma entonação em nossa voz, que pode significar dor, alegria, tristeza... Não tenha medo de se expressar na frente do seu filho, porque isso vai o ajudar a decodificar as emoções.

Dê atenção e espaço para o bebê
Passar um tempo se dedicando integralmente à criança é importante para criar um ambiente emocional saudável e também para perceber o que ela tem a dizer, mesmo que não o faça com palavras. Dê espaço para a criança demonstrar seus sentimentos e suas vontades. Ou seja, você não precisa ficar falando sem parar na frente do seu filho achando que assim ele vai começar a falar mais cedo. Dar espaço para o silêncio também é importante – ele também é uma forma de comunicação.

Cante. Sem medo de desafinar
Além de conversar, cantar pra criança é essencial. A sonorização, a rima e o ato de cantar transformam a fala em brincadeira, e isso comprovadamente ajuda o desenvolvimento da linguagem, do vocabulário e facilita o período de alfabetização. Outro ponto forte das músicas são os refrões porque a repetição prende a atenção das crianças. Permita que seu filho conviva com diferentes sons e melodias. “Muita gente entra naquela discussão de direitos humanos, que ‘atirei o pau no gato’ passa uma mensagem de violência, mas nos primeiros anos para a criança o que importa é a sonoridade”, diz a pedagoga Eliana Santos, diretora pedagógica do Colégio Global (SP).

Leia histórias e poesias
As histórias, além do estímulo que representam à imaginação, aumentam o vocabulário e a curiosidade sobre a linguagem. Os poemas, assim como as músicas, têm ritmo e sonoridade bem acentuados. Comece com os textos de rimas diretas e, aos poucos, vá sofisticando. Vale lembrar que a leitura não pode ser mecânica. Coloque emoção e pontue cada frase.

Explore sinônimos
Quando seu filho perguntar “qual é o nome disso?”, não se contente em dar uma só resposta. Claro que nem todos os sinônimos ela vai memorizar imediatamente, mas no dia a dia procure variar o jeito como você define as coisas. Eliana dá um exemplo divertido que usava em sua própria casa: “Eu falava para lavar as nádegas em vez de bumbum. Aos poucos, a criança vai enriquecendo seu vocabulário.”

Permita a convivência
Conviver com outras crianças é importante. “Quando uma criança convive com a outra, ela observa muito e repete. Essa troca enriquece sua experiência”, afirma Eliana.

Criança aprende brincando
É isso mesmo. Nada de transformar o aprendizado da criança em algo mecânico. Se a criança está se divertindo e fazendo determinada atividade com prazer, ela aprende muito mais rápido. A dica aqui é: entre pela porta que ela abre para você. Ou seja, se ela se mostrou interessada por um livro específico, em vez de forçar a leitura de outro, ajude-a a explorá-lo. Se ela está tímida, não a obrigue a ficar no colo de todos os parentes da festa. E nada de desespero: se você prestar um pouquinho de atenção, vai identificar a vontade do seu filho em determinado momento.

sábado, 6 de maio de 2017

Cartilha sobre autismo

Pessoal, o Ziraldo escreveu uma cartilha informativa sobre o autismo. Quem quiser saber mais pode fazer o download clicando AQUI


Autismo

Reportagem retirada da coluna Letra de Medico, da revista VEJA



Uma das condições clínicas que mais desafia profissionais da área de saúde atualmente é o Transtorno do Espectro do Autismo. O número de casos vem aumentando ano a ano de forma exponencial no mundo todo, sem que alguém possa explicar o porquê.
Em um primeiro momento se atribuiu o aumento explosivo à mudança do critério diagnóstico e à maior atenção dada aos sinais precoces de autismo, já que na classificação de “espectro” se encaixam casos de diferentes gravidades e condições clínicas, incluindo algumas que há pouco tempo atrás nem seriam chamadas de autismo, como dificuldades de comunicação e interação social, atitudes peculiares e comportamentos repetitivos e restritos, podendo inclusive estar associados a outros problemas psiquiátricos e neurológicos como epilepsia, déficit de atenção, hiperatividade, dificuldade intelectual, até a anomalias físicas.
Porém, nota-se que mesmo agora, anos após a mudança no critério de classificação que passou a entender o autismo como um espectro, o número de casos continua aumentando de forma impressionante, sugerindo que a explosão da prevalência não se deve unicamente ao critério de classificação mais amplo.
Nos Estados Unidos, aonde existem estatísticas confiáveis, dados apontam que um em cada 42 meninos e uma em cada 189 meninas apresenta diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (de fato afeta mais os meninos na proporção de 4,5 meninos para uma menina). Devemos levar em conta que estes números de prevalência podem variar em diferentes contextos populacionais e ambientais, mas, não bastasse o aumento do número de casos, até a presente data, pouco se sabe sobre suas causas, apesar de muito investimento em pesquisa em mais de um século de conhecimento da condição.

A história da pesquisa do autismo está ligada à Áustria

Interessante, cinco austríacos estão entres os nomes mais importantes da história do conhecimento do autismo: Freud, Breuer, Kanner, Bettleheim e Asperger. O termo “autismo” já é conhecido desde a época em que o famoso médico neurologista austríaco Sigmund Schlomo Freud lançou ao mundo sua visão biopsicossocial do ser humano, e seu colega austríaco médico Josef Breuer descreveu pela primeira vez o termo “autismo”. Porém, naquela época, relacionando-o muito mais como um sintoma da esquizofrenia infantil do que com o que conhecemos hoje como Transtorno do Espectro do Autismo.
Décadas depois, outro austríaco, o psiquiatra infantil Leo Kanner, usou o temo “autismo” descrevendo-o como um quadro diferente da esquizofrenia infantil e chamando a atenção para o prejuízo severo na interação social que era muito evidente desde o início da vida desses pacientes.
Mais um austríaco, o pediatra Hans Asperger descreveu, em 1944, um padrão de comportamento que incluía falta de empatia, baixa capacidade de formar amizades, conversação unilateral, intenso foco em um assunto de interesse especial e movimentos descoordenados. Mas, talvez, seu maior mérito foi destacar que muitos tinham habilidades impressionantes. Chamou estes meninos de “Psicopatas Autísticos”.
O reconhecimento destes talentos especiais acabou dando mais tarde o nome à “Síndrome de Asperger”, que até pouco tempo era classificada dentre os Transtornos do Espectro do Autismo. Porém, atualmente, o termo técnico aplicado à Síndrome de Asperger é Desordem do Espectro Autista de Nível 1, ou seja, grau leve, sem a presença de prejuízos intelectuais ou verbais.

Múltiplas causas levam ao Transtorno do Espectro do Autismo

Apesar entendermos, desde longa data, que o transtorno é causado por múltiplos fatores, ainda não os conhecemos de forma clara. Este hiato de conhecimento permite que teorias sobre causas e curas mirabolantes sejam historicamente “empurradas” sobre as famílias dos afetados.
Estas tentativas ineficientes de identificar as múltiplas causas do autismo se tornaram mais notórias com a divulgação no mundo todo da “teoria da mãe geladeira”, proposta pelo próprio Leo Kanner em 1949, culpando as mães pela falta de atenção e cuidados destas crianças. Esta ideia foi reforçada por outro austríaco, o psicólogo Bruno Bettleheim. Porém, apesar da enorme contribuição, todos ignoraram o simples fato concreto que estas mesmas “mães geladeiras” têm outros filhos que nasceram antes e depois do filho autista, e que, na grande maioria das vezes, não têm autismo.
Teriam estas mães se “refrigerado” só nos cuidados ao filho autista e “se aquecido” nos cuidados dos outros filhos, incluindo os que nasceram antes do autista? Certamente não. Teorias inverossímeis persistem até os dias atuais, como “intoxicação por mercúrio”, “sequelas das vacinas”, “intolerâncias alimentares”, entre outras falácias sem nenhuma comprovação científica, mas que trazem grande prejuízo à saúde do autista, e expectativas falsas aos pais e familiares, já tão aturdidos com a complexa condição de seus filhos.

Autismo não tem cura, mas tem tratamento

Uma doença tão complexa e enigmática, que tem múltiplas causas, dificilmente será curada por uma única intervenção “mágica”. Mas não ter cura não significa que não tenha tratamento, e o mais aceito é baseado na teoria comportamental, cientificamente comprovada que, quanto mais precocemente for iniciada, melhor o prognóstico a médio e longo prazo.
Existe uma “janela de oportunidade” para início do tratamento, janela esta que diminui muito depois dos três anos de idade, e que, portanto, não pode ser desperdiçada por medo, mitos e ignorância.
Existem muitas iniciativas de pesquisa com o intuito de permitir que o diagnóstico seja feito cada vez mais cedo na vida. Uma delas vem dos esforços de décadas de um dos mais renomados cientistas mundiais em autismo, o psicólogo brasileiro Mauro (Amir) Klin, que mora nos Estados Unidos e lá desenvolveu uma metodologia científica que permite monitorar o movimento dos olhos de crianças desde os primeiros meses de vida, captando o padrão já reconhecido dos autistas de evitar o contato visual, em especial com humanos.
A segunda iniciativa trouxe seus melhores frutos este mês, baseada na dosagem de algumas substâncias no sangue das crianças, metabólitos envolvidas em processos como o estresse oxidativo e mecanismos epigenéticos (metilação do DNA). Um artigo científico que acaba de ser publicado na revista científica PLoS Comput Biol por pesquisadores do Rensselaer Polytechnic Institute in Troy, de Nova York, liderados pelo Juergen Hahn, demonstra que analisando ao mesmo tempo mais de um metabólito específico no sangue destas crianças (FOCM e TS), um alto índice de suspeição pode ser alcançado.
Estas novas ferramentas ainda não substituem, mas devem se somar aos métodos tradicionais de diagnóstico. A grande vantagem delas é que abrem a possibilidade de trazer a suspeita à tona em um momento mais precoce da infância, quando a janela de oportunidades ainda estará aberta por mais tempo, permitindo mais eficácia nas intervenções.
Um diagnóstico precoce, ou mesmo uma suspeita precoce, seguida do início imediato de terapia comportamental já no primeiro ano de vida, é o que de melhor existe no conhecimento atual para dar uma chance a uma criança autista de ter um futuro melhor e mais adaptável às exigências da sociedade em que vivemos.

Avanços na compreensão do componente genético do autismo

Há muitos anos já se acumulavam evidências de que a participação da genética entre os múltiplos fatores causais do autismo era maior do que historicamente se atribuía:
  • Estudos científicos demonstravam que entre gêmeos idênticos (aqueles que compartilham o mesmo DNA), quando um tinha autismo a chance do outro ter Autismo é de 36-95%. Quando a mesma comparação era feita entre gêmeos não idênticos (não têm o mesmo DNA), quando um tinha autismo, a chance do outro ter autismo é menor, cerca de 0-31% Estes dados sugerem forte componente genético no autismo;
  • Pais de um filho com autismo têm uma chance maior de ter um segundo filho com autismo, do que aquela esperada se não houvesse componente genético;
  • Autismo tende a ocorrer com maior frequência em pessoas que têm uma entre centenas de condições genéticas, como nos indivíduos com Síndrome de Down, Síndrome de Rett, Esclerose Tuberosa, Síndrome de Angelman e Síndrome do X-Frágil;
  • Familiares de autistas têm, com maior frequência do que a população geral, sinais mais leves do espectro do autismo.
Mas foram nos últimos 10 anos, com o fabuloso avanço das técnicas de investigação do material genético, que um número crescente e irrefutável de informações científicas aponta para uma contribuição genética em uma fração importante dos casos. Centenas de estudos genéticos se acumularam, e hoje se sabe que testes genéticos podem detectar a causa do componente genético em 10% a 40% dos casos de autismo, com taxa maior de detecção nos casos em que tecnologias de análises genéticas mais modernas são utilizadas e em casos onde o autismo está presente associado a outros problemas de saúde e sinais físicos como parte de síndromes.
O mais amplo, moderno e aprofundado estudo deste tipo acaba de ser publicado na revista científica Nature Neuroscience. Foi realizado pelo grupo de pesquisa conhecido como The Autism Speaks MSSNG Project, uma colaboração entre ONGs de pacientes e familiares (Autism Speaks), geneticistas liderados pelo Dr. Stephen Scherer (Hospital for Sick Children de Toronto, Canadá) e informatas do Google, naquele que já é considerado o maior programa de estudos genéticos em autismo no mundo. O nome do grupo – MSSNG – com a falta proposital das letras “I” que formariam a palavra de significado “desconhecido” sinaliza justamente a necessidade de se compreender as causas do autismo, acima descritas.
Este estudo demonstrou que, apesar da estimativa que variações em centenas dos 20.000 genes possam estar implicados na causa do autismo, este número ainda não é definitivo e a busca ainda não se esgotou. Analisando o DNA de 5.2015 pessoas com autismo, com a tecnologia mais profunda e moderna que a genética conhece, identificaram 18 novos genes que ainda não se sabia serem relacionados ao autismo.
Hoje podemos afirmar que existem no nosso genoma ao menos 71 genes relacionados ao autismo, e 736 genes são “candidatos” que necessitam de mais confirmação. Este número enorme de genes, confirmados e candidatos, demonstra que o Transtorno do Espectro do Autismo não é uma única entidade, mas sim, inúmeras entidades que alteram um número finito e menor de vias metabólicas e acabam causando uma síndrome composta de sinais variáveis, mas não tão heterogêneos.
Cada vez mais os pesquisadores acreditam que, ao invés de tentar corrigir os milhares de genes, um caminho menos ambicioso parece ser desenvolver medicamentos e/ou atitudes que alterem o comportamento e o meio ambiente e consigam impactar estas vias metabólicas.

O papel do médico geneticista nos cuidados do autista e seus familiares

Hoje, mais de um século depois que Breuer descreveu pela primeira vez o termo “autismo”, podemos considerar o Transtorno do Espectro do Autismo como uma desordem multifatorial do neurodesenvolvimento, com forte influência genética. Esta influência pode ser bastante diferente para cada indivíduo.
Compreender o componente genético de caso a caso pode trazer informações sobre prognóstico, conduta médica personalizada e aconselhamento genético para os familiares que pretendem ter mais filhos. Por exemplo, se um determinado casal tem um filho com autismo pela Síndrome do X-frágil, as chances de que outro filho homem venha a ter a Síndrome do X-frágil é de 50%.
Se um casal tem dois filhos com autismo não-sindrômico, a chance de um terceiro vir a ser afetado aumenta para algo em torno de 32%. Se um casal tem um filho com autismo por um erro inato do metabolismo como a Fenilcetonúria, as chances de virem a ter outros filhos com Fenilcetonúria serão de 25% em cada nova gestação.
Já se as principais causas genéticas de autismo até hoje conhecidas forem afastadas, o risco de repetição para casais que têm um único filho autista passa a ser aquele de estudos empíricos populacionais, em torno de 20%. Enfim, o papel do médico geneticista é cada vez maior nos cuidados da equipe multidisciplinar que deveria atende um autista.
No futuro, esta estratificação genética ajudará a tornar mais homogêneo os grupos de pacientes que se submeterão a pesquisa de medicamentos que possam melhorar a qualidade de vida dos autistas.

O papel do Meio Ambiente no Autismo

Caracterizar o componente genético poderá trazer luz sobre a interação entre os efeitos combinatórios entre mais de um gene conferindo predisposição ao autismo, assim como facilitar os estudos que certamente virão decifrar o papel do meio ambiente, neste que é um dos maiores enigmas da medicina atual.
Importante ressaltar que nesta definição (“desordem do neurodesenvolvimento com forte influência genética”), será fundamental decifrar a influência do meio ambiente. Mesmo não havendo ainda provas irrefutáveis de quais são as causas ambientais, estão sendo citadas cada vez mais frequentemente condições ambientais que poderiam ser responsabilizadas, ao menos em parte, pelo aumento na prevalência do Transtorno do Espectro do Autismo, tais como disfunções metabólicas da gestante (diabetes, diabetes gestacional e obesidade) e uso de determinadas drogas na gestação (antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina, etc.).

Nem Nature, nem Nurture: O futuro das pesquisas do autismo está na epigenética!

Apesar de todos estes avanços da genética nos últimos anos, não se tem ideia dos fatores que levam a maioria dos indivíduos a ter autismo. Os genes não mudam durante a vida de uma pessoa, mas a produção de certas proteínas pelos genes pode variar de acordo com estímulos do meio ambiente, o que conhecemos por epigenética. Avanços nas pesquisas de epigenética devem ser a nova fronteira a ser desvendada, quando em breve a análise de fatores presentes no DNA já não trouxer tanta informação como ainda traz hoje.
Na busca frenética por uma melhor compreensão, esperamos que os pesquisadores encontrem um equilíbrio entre e a resposta para uma pergunta milenar: O que é mais importante, a natureza (nature, genética) ou o meio ambiente (nurture, psicologia)? Tudo indica que a resposta para esta pergunta é justamente compreender que a pergunta foi inicialmente mal formulada: são duas vias de uma mesma estrada chamada epigenética.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MÚSICA É USADA PARA AJUDAR CRIANÇAS COM AUTISMO

Excelente matéria de Jefferson Gonçalves, para o site: ondda.com

Que a música aproxima as pessoas não é um ideia nova, mas sua aplicação em determinados campos é inovadora e muito importante. Sabemos que ela é um idioma universal e que pode auxiliar crianças, jovens e adultos, pois reflete práticas terapêuticas, mas, a musicoterapia é um poderoso instrumento no tratamento de pessoas com autismo.O autismo é um distúrbio que provoca até três tipos de comprometimentos. Ele faz com que o processamento sensorial seja diferenciado, fazendo com que portadores possam processar melhor informações espaciais e focar apenas em partes separadas, ainda que tenham dificuldade em formar uma ideia geral do todo.
Ou seja, os autistas podem ter dificuldade em entender o outro e se relacionarem com alguém. Podem ter dificuldade na fala; podendo variar desde eles não falarem a até ficarem repetindo a mesma palavra (pois o córtex cerebral auditivo secundário e as regiões frontais do cérebro, responsáveis pelas palavras, estão afetados). E também, desenvolverem variações diferentes de comportamento, tornando-as mecânicos e repetitivos.
Crianças autistas que recebem um acompanhamento terapêutico associado à música tem uma resposta emocional bem mais positiva que as outras.
Pesquisas recentes realizadas por vários países, incluindo o Brasil, indicam que este tipo de técnica tem o poder de desenvolver talentos e habilidades mediantes as experiências que a pessoa com autismo tem no contato com a musicalidade.
De acordo com a musicista e neurocientista Viviane Louro, a música é um recurso salvador para todas as crianças, mas quando se trata de uma que tem autismo, a mudança para melhor é ainda maior.
Ainda segundo ela, a música faz com que todo o cérebro trabalhe e isso permite a remodelação, usando áreas do cérebro que o distúrbio desliga ou inativa.
Programas da secretaria de cultura do Estado de São Paulo, como o Projeto Guri, presente em mais de 340 municípios paulistanos auxiliam no tratamento e na musicoterapia para crianças com quaisquer graus de autismo.
Segundo o professor Gustavo Schulz Gattino, especialista em Musicoterapia e um dos precursores da pesquisa, as pessoas com autismo tendem a apresentar uma alta capacidade para percepção de melodias.
Autistas que tem contato com a música, tendem a relacionar emoções e sentimentos de forma que facilite o envolvimento na comunicação e criatividade.

Música da esperança

O autista que tem um relacionamento com a música tem mais uma ferramenta para se aproximar do nosso mundo.
Lenira de Souza, paulista, tem 32 anos, é mãe do Rafael, um garotinho de 10 anos, diagnosticado com um tipo brando de autismo, o Asperger.
“Percebemos que ele tinha dificuldade em conversar com os colegas na escola. Aos 4, 5 anos, isso se intensificou. Alguns até o empurravam”, conta. “Hoje, ele consegue conversar e fez amigos. Às vezes, quando fica difícil, fala no ritmo November RainPatience…” revela emocionada.

Crianças surdas aprendem a falar com terapia de música

Várias pesquisas já mostraram o papel da música na abordagem de problemas como autismo e outros transtornos psiquiátricos. Mas um novo estudo realizado na Universidade de Aalborg, na Dinamarca, mostrou um bom desempenho da musicoterapia no tratamento de pacientes deficientes auditivos com implante coclear (às vezes chamado de “ouvido biônico”).
A pesquisadora Dikla Kerem analisou o desenvolvimento de crianças de 2 e 3 anos em sessões de musicoterapia, comparando a quando elas iam a sessões de fonoaudiologia com o método de brincadeiras.
“As análises dos vídeos gravados em todas as sessões confirmam que a musicoterapia melhorou a frequência ou a duração dos comportamentos-alvo significativamente mais do que as brincadeiras”, escreve a pesquisadora em sua tese.
Quando nasce, um bebê ainda não sabe distinguir os sons. Para ele, o barulho de uma buzina não é diferente do latido de um cachorro. É com o tempo que ele vai aprender essas diferenças.
“Primeiro, a criança precisa ter atenção para o som. Depois, ela passa a discriminar os diferentes sons. Então, ela começa a reconhecer. E, quando começa a compreender os sons, finalmente, começa a falar”, explica a fonoaudióloga Ana Cristina de Oliveira Mares Guia, doutoranda em saúde da criança e do adolescente.
Ela explica que uma criança que nasce com deficiência auditiva não irá desenvolver nenhuma dessas habilidades que levam à escuta e à fala. Por isso, quando recebem um implante coclear, precisa ser guiada por todo esse percurso até aprender a ouvir e a falar.
“A música, principalmente para as crianças, será um facilitador para promover todo o desenvolvimento dessas habilidades porque tem ritmo, tem entonação, você fala mais fino ou mais grosso, mais alto ou mais baixo”, diz a fonoaudióloga.
Além de desenvolver as habilidades que levam à fala, a musicoterapia também aumenta a taxa de adesão ao tratamento. “As crianças ficam muito mais felizes. A música mexe muito com o corpo, elas adoram”, conta a fonoaudióloga. O tempo médio que uma criança leva para aprender a falar é de um ano após a colocação do implante.
Adultos. O tratamento com a musicoterapia pode ser usado também em adultos que já ouviram, mas perderam a audição por algum motivo. Em adultos que já nasceram surdos, os resultados dos implantes não são muito bons, segundo Ana Cristina.

SUCESSO

Audição de menino hoje é ‘maravilhosa’

O menino Carlos Eduardo Filho, 11, nasceu prematuro e precisou ficar quase um mês internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal. Ainda no hospital, ele pegou uma infecção, que evoluiu para uma meningite bacteriana.
“O diagnóstico foi uma surdez neurossensorial profunda bilateral. Ou seja, ele havia ficado completamente surdo”, conta a mãe, Débora Rodrigues da Silva, 48. A solução encontrada foi que Carlos Eduardo – ou Kadu – fosse submetido a uma cirurgia para a colocação de um implante coclear.
A família se mudou de Manaus, no Amazonas, para Bauru, no interior de São Paulo, para dar ao menino o melhor tratamento. “Aqui, a música fazia parte de tudo. E o que eu entendo é que a função da música é dar movimento aos sons. As crianças se movimentam, pulam, é lúdico”, diz Débora.
Aos 5 anos, Kadu começou a fazer aulas de flauta e, este ano, de violão. “Hoje, a voz dele é perfeita. A qualidade da audição é maravilhosa. Ele estuda em escola regular, faz inglês com crianças da mesma idade”, conta a mãe.


Link para matéria do jornal O TEMPO: http://www.otempo.com.br/interessa/crian%C3%A7as-surdas-aprendem-a-falar-com-terapia-de-m%C3%BAsica-1.1394013http://www.otempo.com.br/interessa/crian%C3%A7as-surdas-aprendem-a-falar-com-terapia-de-m%C3%BAsica-1.1394013

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O ponto fraco do ensino forte

Por Marta Medeiros
Revista Época - 28.07.11

 Foram os piores anos da minha vida.” A frase ainda é dita com sofrimento pela estudante carioca Chanel de Andrade Rodrigues, de 18 anos. Ela está no 1o ano da faculdade de artes, mas não esquece o período em que estudou no Santo Agostinho, do Rio de Janeiro, um dos colégios mais tradicionais e bem-conceituados do país. Do 7o ano do ensino fundamental ao 1o ano do ensino médio, passou seus dias perdida entre aulas que não acompanhava, um enorme volume de conteúdos para memorizar, provas difíceis, notas baixas e um séquito de professores particulares a cada final de ano letivo. Na escola, não gostava de sair para o recreio e não comia nada. Em casa, compensava a ansiedade comendo demais. Na escola anterior, menos rígida, onde tirava boas notas, costumava nadar e fazer aulas de dança. No Santo Agostinho, evitava as aulas de educação física. Chanel entrou em depressão e engordou 20 quilos.
A mãe tentou convencê-la a fazer terapia, mas ela se recusava. “Eu só queria ser invisível”, afirma. “Odiava a competitividade que estava sempre no ar.” Só depois que Chanel foi reprovada, no 1o ano, sua mãe decidiu trocá-la de escola. (Procurado por ÉPOCA, o Santo Agostinho não respondeu aos pedidos de entrevista.) O caso de Chanel é apenas um entre centenas que revelam uma realidade incômoda: o custo emocional alto – muitas vezes altíssimo – do modelo de eficiência adotado naquelas escolas que exigem alto desempenho dos alunos e garantem todo ano boas colocações nos melhores vestibulares.
Consideradas as melhores do país, quase sempre campeãs nas provas nacionais de avaliação, as escolas de ensino tradicional representam, na mente de muitos pais, uma esperança de sucesso para a vida dos filhos num mercado de trabalho competitivo. Apesar de seus resultados inquestionáveis e da procura crescente por escolas desse tipo, esse modelo agora começa a ser mais e mais questionado por seus efeitos colaterais.
O ensino tradicional surgiu na Europa do século XVIII como um modelo em que os alunos são ensinados e avaliados de forma padronizada. Ele se inspira na ideia de que a mente das crianças é uma tabula rasa, um espaço em branco sobre o qual os diversos conteúdos – gramática, matemática, ciências, história etc. – devem ser inscritos seguindo um método rigoroso de exposição e avaliação. Mais do que qualquer outra aptidão, valoriza o acúmulo de conhecimento: quanto mais fatos e fórmulas o aluno aprende, mais bem avaliado ele é.
Há, ainda, uma forte pressão por desempenho nas provas e um grande volume de conteúdo a estudar. As escolas tradicionais também costumam ser mais rígidas em regras de comportamento, como respeito ao horário, frequência às aulas, uso de uniforme e atitude no recreio. Apesar de ter incorporado conceitos pedagógicos mais modernos, a essência do modelo tradicional de ensino permanece a mesma – e a educação tradicional está em alta no mundo, com filas de espera para matrículas e salas abarrotadas de alunos.
A grande procura por uma vaga numa dessas escolas se explica pelo desempenho acima da média de seus alunos. No Brasil, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que classifica as escolas públicas e particulares a partir das notas tiradas numa prova feita pelos alunos, é decisivo para a família na hora de escolher onde matricular seus filhos. Há anos, os colégios mais tradicionais e rígidos ocupam o topo da lista. “É comum hoje em dia pais e mães compararem as posições das instituições em que seus filhos estudam. Se os resultados das escolas não são bons, bate o sentimento de que se está fazendo algo errado”, afirma Quézia Bombonato, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Em Vinhedo, no interior de São Paulo, uma escola aberta em 2001 mostra essa tendência. O Colégio de Vinhedo, que busca alunos de classe média alta, reproduz uma escola tradicional europeia. Os alunos usam uniformes formais, os professores vestem ternos e tailleurs. A própria decoração da escola parece de outro tempo – embora, dentro da sala de aula, haja lousas interativas, câmeras e laptops para cada aluno. Há ênfase no conteúdo e na disciplina. “Nossa ideia é resgatar valores que são esquecidos”, diz o diretor, Eduardo Cumone. “Também temos uma carga horária maior, para que haja melhores resultados.” A proposta da escola encontra eco nos pais. A procura triplicou nos últimos cinco anos. Em 2001, havia uma única turma por série; em 2012, haverá duas ou três.
Os rankings de avaliação também puxam a educação para o lado mais rígido em outros países. “Nos Estados Unidos, está havendo um retorno à tradição, amparado na crença de que pontos na competição internacional são importantes”, diz o psicólogo americano Howard Gardner, criador da Teoria das Inteligências Múltiplas, que propõe vários tipos de inteligência além daquela medida por testes de Q.I. Na Europa, acontece o mesmo. O Reino Unido é um bom exemplo. No fim de 2010, a Secretaria de Educação anunciou uma reforma no ensino que inclui o “retorno aos valores tradicionais”: mais conteúdo, mais disciplina – e até a obrigatoriedade de roupas s mais formais na rede pública, com aventais para as meninas e terno e gravata para os meninos. No anúncio, o secretário Michael Gove mostrou sua preocupação com a queda do país nos rankings mundiais de educação. “Vamos voltar ao topo”, disse.
O ensino tradicional ganhou ainda mais adeptos recentemente com o lançamento do livro Grito de guerra da mãe tigre. Nele, a advogada sino-americana Amy Chua relata sua experiência na criação de duas filhas com rigidez e exigências que beiravam o absurdo. Ambas eram proibidas de ficar abaixo do 1o lugar na classe e tinham de realizar atividades extracurriculares dificílimas escolhidas pela mãe – uma se tornou exímia violinista e a outra pianista. Pela defesa desses padrões quase marciais de ensino, Amy chegou a ser ameaçada de morte na internet. Mas seu livro entrou rapidamente na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos. Isso expõe o medo de toda a nação de se ver rebaixada nas listas internacionais de melhores alunos.
Para quem consegue seguir em frente e encarar tantas exigências, o ensino tradicional pode dar certo. Giulianna Freitas, de 12 anos, cursa o 7o ano do colégio Dante Alighieri, um dos mais antigos e tradicionais de São Paulo. Está lá desde os 3 anos. Ela diz que adora. Afirma tirar de letra as regras rígidas da escola, entre elas uniforme impecável e as restrições ao contato afetivo entre meninas e meninos. “Não me vejo em outro colégio”, diz. Sua mãe, a dentista Ana Claudia Garcia de Freitas, afirma ter escolhido o Dante pelos ótimos laboratórios e pelas bibliotecas. E também por ter sido sua escola – e a de sua mãe. “É uma tradição na família.”
Mas os educadores têm visto com ceticismo cada vez maior o sucesso desse modelo. Eles alertam sobre vários problemas que decorrem da estratégia convencional, baseada na combinação de competitividade e pressão por notas. A primeira limitação é a seleção natural que põe em prática. Esses colégios selecionam os alunos na hora da matrícula – com os famosos “vestibulinhos” – e, depois disso, acabam selecionando, pelo grau de dificuldade em acompanhar o ritmo, aqueles que ficam. “Valorizamos o conteúdo e somos inflexíveis em nossa filosofia de foco no professor, cultura clássica e disciplina”, diz Maria Elisa Penna Forte, supervisora do colégio carioca São Bento, que só aceita meninos e foi quatro vezes campeão nacional do Enem. “Os pais querem que os filhos se saiam bem aqui, mas, em muitos casos, isso não acontece. Aí o melhor é mudar de escola.”

Leia o restante aqui

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Estudar música aumenta capacidade de aprendizagem das crianças

     

      Há uma série de evidências de que crianças que aprendem a tocar um instrumento musical na infância têm ganhos significativos em habilidades motoras, auditivas e no desenvolvimento da linguagem ( fala, leitura e escrita - anota aí ) e que também são utilizadas em diversas outras situações do dia-a-dia. Além disso, as pesquisas já demonstraram que o aprendizado musical na infância aumenta o desempenho em múltiplas dimensões cognitivas como habilidades espaciais, matemáticas, de linguagem verbal, e até mesmo uma associação com maior QI e desempenho acadêmico na idade adulta já foi descrita.
Rock´n roll baby!
     Um estudo longitudinal realizado em Harvard e publicado em 2008 no periódico PloS ONE, confirmou parte desses achados ao mostrar que crianças que tiveram aprendizado musical por pelo menos três anos apresentam melhor desempenho motor, auditivo e também uma melhor habilidade verbal e de raciocínio não verbal. Os resultados poderiamm ser explicados pelo efeito do estudo da música sobre o cérebro, mas também pelo fato de que as crianças que recebem educação musical costumam ter pais mais dedicados ao processo educacional dos filhos como um todo. Além disso, crianças que passam anos no processo de educação musical podem ser genuinamente mais persistentes e motivadas do que aquelas que começam e desistem logo em seguida. E se são mais persistentes para a música, têm chance de serem mais persistentes também nas tarefas da escola.
     No corrente ano de 2013, uma pesquisa realizada na Concordia University (EUA) e publicada no Journal of Neuroscience acaba de reafirmar que estudar música e aprender a tocar um instrumento musical antes dos 7 anos de idade pode sim aumentar a capacidade intelectual das crianças e também suas capacidades motoras, a partir de alterações duradouras na estrutura e funcionamento cerebral.
     O estudo foi realizado com a participação de 36 músicos, que foram submetidos a um período de atividade musical e, em seguida, a uma ressonância magnética para perceber quais os efeitos despertados no cérebro. Os voluntários tinham os mesmos anos de experiência, mas metade deles tinha iniciado a sua formação musical antes dos sete anos, sendo que os restantes começaram em idades mais avançadas.

Ritmo: útil na música, na fala e na leitura
     Análises com ressonância magnética funcional feitos no grupo estimulado demonstraram que os indivíduos que iniciaram seus estudos de música precocemente apresentavam um aumento de atividade nas áreas cerebrais de comunicação entre ambos os hemisférios e, em particular, nas fibras nervosas que ligam as duas áreas motoras do cérebro.
     Os pesquisadores responsáveis pelo estudo revelaram que basta apenas 15 meses de aprendizagem durante a fase inicial da infância para que o cérebro alcance um desenvolvimento mais complexo. De fato, o cérebro humano tem uma grande capacidade de se modificar em resposta às exigências do ambiente. E o que parece dom ou capacidade inata, pode muitas vezes ser o resultado de uma diferença estrutural em áreas cerebrais mais estimuladas e, por plasticidade cerebral, modificadas como resposta ao ambiente.
     E você achando que a gente nascia esperto, burro, inteligente, bobo, capaz ou não e tinha que aceitar, porque não dava para fazer nada, hein? Então pense de novo, amigão. E rápido!

Para terminar, uma música sobre sonhos e frustrações  (Mr Jones, Counting Crows)


 "So you wanna be a rock´n roll star, well listen now to what I say: just get an electric guitar and take some time learning how to play"

quinta-feira, 31 de março de 2011

Transtornos Globais do Desenvolvimento



Em homenagem ao 2 de abril, Dia Mundial da Conscientização pelo Autismo

Transtornos globais do desenvolvimento ( também chamados T. Invasivos do Desenvolvimento) são uma categoria que engloba cinco transtornos caracterizados por atraso simultâneo no desenvolvimento de funções básicas, incluindo sociabilização e comunicação. Os transtornos invasivos do desenvolvimento são:

* Autismo;
* Síndrome de Rett;
* Transtorno desintegrativo da infância (síndrome de Heller);
* Síndrome de Asperger,
* Transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, que inclui (ou também é conhecido como) autismo atípico.

Os pais podem perceber os sintomas desde a primeira infância, ocorrendo as primeiras manifestações tipicamente antes dos três anos. Os principais sintomas incluem problemas de comunicação, como:

* Dificuldade no uso e compreensão da linguagem;
* Dificuldade em se relacionar com pessoas, objetos e eventos;
* Brincadeiras não-usuais com brinquedos e outros objetos;
* Dificuldade com mudanças de rotina ou do ambiente familiar;
* Padrões repetitivos de movimentos corporais ou comportamentos.

Em homenagem ao dia 2 de abril, presto minha homenagem a esses pequenos e seus familiares, que lutam em pleno seculo XXI por respeito na comunidade, na família e na escola. Coloco abaixo 2 links, com reportagens sobre autismo e sindrome de Asperger.

"Cada um rema sozinho uma canoa que navega um rio diferente, mesmo parecendo que está pertinho." (João Guimarães Rosa)